ACTA apresenta recriação de D. Quixote em Portimão

dquixote2“É um espectáculo para fazer pensar. Como nós queremos que seja o Teatro.”

Durante o mês de Novembro, a Câmara Municipal de Portimão organizou uma mostra de teatro que levou a vários locais do seu município companhias teatrais regionais e nacionais. A propósito desta mostra, o Experimental esteve à conversa com a ACTA, A Companhia de Teatro do Algarve.

A Câmara Municipal de Portimão decidiu dedicar o mês de Novembro ao Teatro. O evento começou no dia 1 com a peça “O Primeiro Amor”, pela GAVETA, e acabou no dia 23 com a peça “O Marinheiro”, pelo Teatro Análise de Loulé. O Experimental foi até aos Cinemas de Portimão, no passado dia 15, para assistir à peça “D. Quixote”, levada a palco pela ACTA.

 O Experimental: Como surgiu a ideia de recriarem o «Dom Quixote»?

ACTA: A ideia surgiu ao nosso director artístico, Luís Vicente, depois da leitura de um ensaio de George Steiner intitulado “A Ideia de Europa”. Neste ensaio, Steiner fala do seu entendimento acerca do passado e do futuro da Europa; de aspectos que a caracterizam e de como eles se revelam, ou podem revelar, no dia-a-dia dos cidadãos – nomeadamente, o lastro histórico, cultural e mitológico. Acerca deste aspecto leia-se, no “programa” do espectáculo que foi distribuído à entrada, o texto “Dom Quixote de Dom Quixotes”. Um segundo passo consistiu em fazer cruzar a leitura de Steiner com ideias que nós próprios temos acerca da função do Teatro e da função social e política do actor. É neste contexto que surge a ideia de pegar no mito, ou paradigma, de Dom Quixote. Um aspecto interessante, do nosso ponto de vista, é que o conceptador da ideia considerou não ser ele a pessoa indicada para a dirigir, para a levar à cena. Por essa razão é que foi chamado, para a concretização cénica da ideia, o encenador polaco A. Kowalski, que nós entendemos ser a pessoa indicada para o fazer. Entre a germinação da ideia e a sua concretização decorreram cerca de 2 anos.

O Experimental: Quais foram os desafios de recriarem este clássico?

ACTA: Os desafios foram muitos e de vária ordem, posto que entre nós estava claramente assente que se tratava de criar algo que nada tivesse a ver com uma adaptação do texto de Cervantes, embora a ele recorrêssemos. Encontrarmos os pontos de ligação foi trabalho de alguma dificuldade e gerador de muita discussão entre a equipa, com muitas propostas a serem recusadas e, finalmente, algumas a serem aceites e trabalhadas. Foi feito muito trabalho de laboratório para conseguirmos chegar à versão final.

O Experimental: Como surgiu o convite para irem representar a peça em Portimão?

ACTA: Não se tratou de convite. A ACTA tem colaboração regular com a Câmara de Portimão, estabelecida sob a forma de contrato-programa, desde há 10 anos; e todos os anos realizamos em todo o concelho de Portimão cerca de 30 espectáculos/ano, sendo que 1 desses espectáculos é uma estreia – no caso vertente, Dom Quixote. A 6 de Novembro de 2009 iremos estrear em Portimão – já não no cinema mas no novo teatro – a peça George Dandin, de Molière. Mas antes disso faremos em Portimão mais espectáculos, nomeadamente 2 óperas, uma delas interactiva, com intervenções do próprio público. Estejam atentas à programação.

Podem consultar o nosso site; ou, se para tal nos derem indicação, podem receber no vosso e-mail a informação dos nossos eventos, não só em Portimão mas em todo o Algarve, no país e na Europa. Já agora: a 26 de Novembro de 2008 estreamos em parceria com a C:M. de Almada a peça O Presidente, que entre 16 e 24 de Janeiro de 2009 vai estar no Teatro Lethes, em Faro; e a 24 de Outubro vamos estrear em Trier (Alemanha) um outro espectáculo, Insustentável Leveza, que só em 2010 será apresentado em Portugal.

O Experimental: Acham que esta divulgação do teatro efectuada pela Câmara Municipal de Portimão contribuirá para difundir o teatro na região algarvia?

ACTA: A Câmara de Portimão tem um projecto cultural e teatral de grande alcance e de muito sólido entendimento. Talvez não se dêem conta, mas o investimento da C.M. de Portimão no Teatro Escolar é dos mais expressivos do país.

O Experimental: Na vossa opinião, como foi a reacção do público a esta peça em Portimão? Foi a reacção esperada por vós?

ACTA: Correspondeu exactamente ao que esperávamos. Um espectáculo como este Dom Quixote comporta um desnudamento, por um lado, e aspectos metafóricos, por outro lado, cuja “digestão” não é fácil.
Admitimos mesmo que não apeteça ao público, no final, aplaudir muito. É um espectáculo para fazer pensar. Como nós queremos que seja o Teatro.

A mensagem é de esperança; da esperança que é forçoso existir em cada ser humano. Mas o espectáculo é sombrio, ou mesmo triste em muitos momentos. É sobre a vida de pessoas comuns, de gente a quem não é dada a palavra; gente que vive “num campo de refugiados” (uma metáfora), que ergue e destrói “muros” – tivemos na Europa, o de Berlim, que já caiu; mas existe um muro na Palestina/Israel; existe outro na fronteira dos EEUU com o México. Temos emigrantes que percorrem os caminhos da Europa (a tal que foi raptada por Zeus disfarçado de Touro e que, depois de lhe ter feito filhos, a abandonou; e esses filhos foram criados por um homem (o rei Minos)… Portanto: a salvação dos homens está nos próprios homens, na sua coragem e na sua capacidade de criar e de sonhar, e não nos deuses. Esta é, em nosso entender, a grande mensagem dos espectáculo.

O texto da peça faz parte do Colectivo, a partir de Cervantes e Luís Mourão. A sua concepção Cenográfica e Encenação estiveram a cargo de Andrzej Kowalski. A peça Dom Quixote contou com os actores: Afonso Dias, Bruno Martins, Elisabete Martins, Glória Fernandes, Mário Spencer, Liza Veiga, Luís Manhita, Tânia Silva e Vasile Bodrug.

 Sobre o D. Quixote da ACTA

A acção de “D. Quixote” decorre num campo de refugiados, onde um grupo de pessoas, provenientes de vários cantos do mundo, criaram uma companhia de teatro e pretendem realizar a peça Dom Quixote de Cervantes, sem permissão dos guardas do campo. Contudo, o actor que iria interpretar o papel de Dom Quixote começa a acreditar que é realmente Dom Quixote e transforma-se num cavaleiro andante, onde com o seu fiel companheiro de viagens D. Sancho, vive diversas aventuras criadas pela sua imaginação.
Perante uma sala relativamente cheia, no final a peça foi bastante aplaudida pelos espectadores e foram vários os comentários positivos. “Foi um pouco diferente daquilo que estava à espera, pois esperava a reconstituição do «Dom Quixote» de Cervantes, porém, acho que foi uma adaptação muito engraçada e muito bem feita”, comenta Carmen Rocha. Também Nelson Palma considerou “a peça sem dúvida muito divertida, principalmente a personagem de D. Sancho. Deu para descontrairmos e nos divertirmos um pouco.”

Imagem: Cartaz da peça Dom Quixote, D.R.

Ana Reis | Tânia Neves

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: