Estágio curricular inquieta académicos finalistas

“O estágio curricular é ainda uma fase em que o aluno está na conveniente condição híbrida de estudante e trabalhador”

Numa altura em que caminham para o período crítico que é a preparação para um estágio curricular, os finalistas do curso de Ciências da Comunicação encaram alguns desafios. E  também receios.

A pressão de estar à altura

Os alunos confiam ter maturidade suficiente para enfrentar esta nova fase que é o estágio curricular, mas julgam não ter a formação necessária. Segundo Marco Maurício, finalista do curso de Ciências da Comunicação, “ninguém vem para um curso de comunicação sem saber escrever ou sem saber falar em público. Duvido que, em 3 anos, não tenha aprendido nada. Agora se me disserem: sentes-te preparado ou com grande bagagem para chegar ao estágio e ser um grande profissional? Não, vou para o estágio ou integrar um emprego onde, logicamente, vou ter de aprender tudo logo ao início”. Estas certezas e receios dos futuros estagiários são frequentes e traduzem-se no medo de falhar, de não conseguirem fazer o que lhes é solicitado e de não dominarem determinadas técnicas. No fundo, é habitual que os alunos não se sintam à altura de todas estas exigências.

“É, portanto, um período estimulante, mas também algo doloroso, de grandes incertezas, indecisões e receios, que marca o fim da vida de estudante, algo protegida pelos pais, pela escola, e mesmo pelos professores”, reflecte Filipa Cerol Martins, professora no curso e responsável pelo Gabinete de Comunicação da UAlg. Para além dos receios, os estudantes finalistas também se mostram indecisos relativamente ao estágio. A pressão que surge nesta altura acaba por influenciar por vezes as suas decisões.

“Sinceramente, acho que vou pôr os meus gostos um bocadinho de parte e vou ver se arranjo estágio em qualquer sítio, porque isto está mesmo numa de cada um por si, tipo selva, então vou onde me derem estágio”, assegura Marco Maurício. Ainda assim, para Filipa Cerol Martins, que foi coordenadora dos estágios de Ciências da Comunicação em anos anteriores, numa altura em que os alunos se sentem a dar «um tiro no escuro» é essencial que saibam, para além da iniciativa que devem ter, procurar aconselhamento. E sugere aos alunos que procurem estágio numa “área em que se sintam confortáveis (aquela em que tiverem melhores notas, em cujas aulas práticas foram mais desenvoltos), mas sobretudo de que gostem. Há muito tempo na vida para fazermos coisas de que não gostamos especialmente”.

Capacidade de iniciativa e de espera aflitiva

“Hoje em dia dá-se grande ênfase à capacidade de iniciativa como resposta aos problemas que se deparam ao longo do nosso percurso académico e profissional (…), pois esperar que outros resolvam por nós irá provavelmente deixar-nos para trás…”, aponta Francisco Gil, director do curso de Ciências da Comunicação. Para Joana Germano, finalista de 2007, “a grande dificuldade com que os alunos se deparam é a pressão de não receber uma resposta, ou então de não receber a resposta que se quer, ou uma melhor”.

“Não é difícil encontrar locais que aceitem estagiários na nossa área. Não é necessário sermos remunerados e isso é uma mais-valia para as empresas. Podemos ser mais ou menos ambiciosos na escolha, no meu caso, enviei currículos para 7 locais: um não me respondeu, 2 responderam-me negativamente (um por falta de infra-estruturas, outro porque não estavam mesmo a precisar de ninguém na área), os outros 4 sítios responderam-me positivamente, mas tive que optar por um (…)”, conta Patrícia Encarnação, finalista de 2008, realçando “a parte negativa da espera, porque muitas vezes ficamos semanas a aguardar respostas, há mesmo locais que nem nos chegam a responder, e isso torna-se angustiante, porque começamos a sentir-nos desmotivados”. Apesar de tudo, Patrícia acredita que esta espera a preparou para os dias de hoje, uma vez que está à procura de emprego e ainda não obteve respostas. “Hoje sei que a procura de trabalho ainda é bem pior, acho que acaba por ser uma boa preparação para o que vem a seguir”, assegura.

É certo que nem todos os alunos se deparam com impedimentos na procura de um estágio curricular. “Por incrível que pareça, não encontrei entraves, porque soube que a empresa admitia estágios curriculares, para posteriormente passarem a profissionais e arrisquei”, comenta Filipe Pascoal. Para o recém-licenciado, os alunos devem procurar saber, antes de enviar a carta de apresentação e os currículos, se a empresa que desejam estagiar aceita estagiários.

O estágio “torna-nos mais autónomos e confiantes”

Francisco Gil, também coordenador dos estágios neste ano lectivo, considera que existem sempre questões difíceis, por parte dos alunos, visto que cada caso é um caso e nem sempre o professor tem a “experiência de todo o âmbito envolvente”.  Para o professor, o cargo de coordenador de estágios “permite responder a alguns anseios dos alunos finalistas e contribuir para a sua formação como futuros profissionais responsáveis e com iniciativa”.

Depois dos estágios, os balanços

O estágio é importante para reforçar técnicas e práticas, que na Universidade se trabalham mais no âmbito teórico. “Foi uma óptima experiência, aprendi muito sobre jornalismo, sobre técnicas radiofónicas, aprendi a trabalhar com o material radiofónico, programas específicos e a trabalhar no próprio estúdio. Aprendi também com jornalistas com uma vasta experiência”, refere Joana Germano. Também Filipe Pascoal reconhece que o estágio que conseguiu foi fundamental para se desenvolver, como pessoa e como profissional: “aprendi bastante, porque desde o início me foram delegadas responsabilidades e o estatuto de estagiário não existia”.

Encontrar um estágio não só depende da iniciativa do aluno, do aconselhamento dos professores e do apoio dos pais, mas também de um encontro, muitas vezes fortuito, entre a vontade e o gosto por uma área ou local de estágio específico e a necessidade de uma empresa de acolher estagiários.

Acima de tudo, o período do estágio curricular deve ser útil e permitir experiências, para que o aluno possa considerar que o realizou com sucesso. Joana Germano crê que “qualquer estágio serve sempre o propósito, alguns mais, outros menos, mas acho que é errado dizer-se que após um estágio não se aprende nada de novo, pois não é verdade, aprende-se sempre algo”.

“O estágio curricular é ainda uma fase em que o aluno está na conveniente condição híbrida de estudante e trabalhador”, afirma Filipa Cerol Martins. “Mais do que procurar um estágio e encontrá-lo, os alunos sentem que o seu curso está a acabar e que há que entrar no mercado de trabalho e estar à altura dos desafios que se seguem”, afirma a docente, deixando um conselho: “no estágio, perguntar tudo, tudo, sempre, e mostrar um enorme empenho, motivação e, claro, bom trabalho”.

Ana Catuna | Joana Ferreira

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: