Aterrem em Portugal recupera história da aviação portuguesa

Nas mais de 300 páginas do livro Aterrem em Portugal! – Aviadores e aviões beligerantes em Portugal na II guerra Mundial, do jornalista Carlos Guerreiro, o ponto de partida são os relatos de inúmeras histórias de aterragens forçadas.

 O pré-lançamento de Aterrem em Portugal realizou-se no dia 24 de Novembro, no Clube Farense, na capital algarvia. Carlos Guerreiro, jornalista correspondente da TVI em Faro e com um passado jornalístico em diversas áreas da comunicação, afirma ao Experimental que «não existe uma razão» para a construção do livro. «Sempre fui um apaixonado pela aviação da II Guerra Mundial», revela o autor, explicando que «muitas influências vêm da infância».

Aterrem em Portugal narra a situação aérea de Portugal no contexto da II Guerra Mundial através de relatos na primeira pessoa de alguns aviadores estrangeiros que, por qualquer motivo, tiveram de terminar a sua viagem em Portugal e também através de documentos nacionais e internacionais. «O que vão ler é mais um conjunto de reportagens do que uma análise histórica», declara o autor na introdução, explicando que se trata sobretudo de um trabalho de investigação jornalística.

Histórias como a de “Bill” Littlejohn

O pré-lançamento do livro contou com cerca de uma centena de participantes e diversos órgãos de comunicação social. Para além de falar do seu árduo trabalho de pesquisa, o escritor apresentou um vídeo de um aviador americano, William “Bill” Littlejohn, que permaneceu em Portugal durante esta época, e que com os seus depoimentos ajudou na construção do livro, o que possibilitou aos presentes terem uma noção mais clara do que de facto foi Portugal e os seus aeroportos em tempos de guerra. «Quando sobrevoava Portugal notei que tinha começado um fogo na asa. Fiquei rapidamente sem o sistema eléctrico e tive de tomar uma decisão: ou me ejectava ou tentava aterrar. Decidi aterrar o avião. Mas sem a viatura de aterragem e ‘flaps’ foi muito complicado. Consegui aterrá-lo a uma velocidade de 193 quilómetros por hora e deveria estar a 140. Quando finalmente consegui imobilizá-lo [a apenas 15 metros do final da pista], saí do avião e beijei o chão. Ao meu lado estavam dezenas de portugueses a bater palmas», relatou o piloto. Depois da viagem para Elvas, “Bill” contou a sua vida ao lado da população portuguesa, onde trocava ensinamentos com estudantes e «chocava» com a cultura portuguesa. «Bebíamos vinho em todas as refeições. Não estávamos habituados a isso, mas em Portugal toda a gente bebia», sublinhou.

Resultado de mais de uma década de investigação e pesquisa sobre o tema, «as coisas começaram devagar e a certa altura entendi que seria possível fazer um livro com isto. Um pescador contou-me histórias de como tinha salvo seis americanos em Novembro de 1943. Comecei a procurar estes sobreviventes. Quando finalmente encontrei um, já tinha começado à procura de outros e já tivera sorte. As histórias foram surgindo, tal como os documentos e outras coisas. Partir daí para o livro é fácil», explica o autor ao Experimental. De facto é o que o livro nos dá: um conjunto de histórias bem contadas e interligadas em cerca de 300 páginas, ilustradas com inúmeras fotografias da época e variados documentos.

Um retrato da política e da diplomacia

«Perceber a forma como iria ficar organizado, como entrava uma determinada história num dado momento e não noutro, como interligar histórias que, mesmo sendo parecidas, não tinham ligação entre si foram os aspectos mais difíceis», reconhece Carlos Guerreiro. No entanto, o livro não é apenas uma mera apresentação de histórias contadas por aviadores que as viveram, ainda que seja essa a sua base primordial. Aterrem em Portugal apresenta a visão política e social que Portugal mantinha com os países em guerra. «Paralelamente, o autor descreve-nos os procedimentos inerentes à repartição das tripulações nas suas vertentes diplomáticas e política, o que permite ao leitor ter uma ideia do modo como Portugal se comportava no conflito e sobretudo quanto aos problemas que estes episódios traziam a um país que sendo neutro tinha consequentemente de gerir cuidadosamente a sua política de relacionamento com os países envolvidos directamente no conflito», explica Marçal Grilo no prefácio de sua autoria.

O ex-ministro da Educação, que a editora do livro conhecia pessoalmente, era, de resto, um igual apaixonado por aviões. «Não coloquei quaisquer obstáculos e em Setembro recebemos, de facto, o tal prefácio que era muito mais extenso do que eu pensava», afirma o jornalista. De facto, o texto não é mais do que um grande elogio ao trabalho final de Carlos Guerreiro. Como escreve Marçal Grilo, «o livro, cujo interesse e importância são indiscutíveis (…) é de evidente interesse histórico e que constitui um marco para o conhecimento das diferentes situações vividas em Portugal».

«Este livro não é um fim, é um começo»

«Não é um trabalho fechado nem ou completo», afirma o autor, apelando para que seja ponto de partida para muitos outros trabalhos. E de facto o é, porque muitas outras histórias estão a ser desvendadas pela iniciativa deste livro e que o escritor promete «preencher mais tarde».
Aterrem em Portugal já está à venda nas livrarias portuguesas.

 
Joana Ferreira | Ana Carvalho

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: