Qualidade na televisão

«Não é possível definir qualidade em termos absolutos»

À conversa com Vítor Reia-Baptista sobre o livro Discursos e Práticas de Qualidade na Televisão

foto-vrb_layer-1Discursos e Práticas de Qualidade na Televisão é uma antologia organizada pelos docentes da Universidade do Algarve (UAlg) Gabriela Borges e Vítor Reia-Baptista que propõe uma discussão alargada sobre o conceito de qualidade na televisão. Sistematizando diferentes enfoques e práticas em contexto lusófono, debruça-se ainda sobre investigações que estão a ser desenvolvidas em Portugal, Espanha, Argentina, México, Inglaterra e Itália. O lançamento oficial do livro teve lugar no Espaço de Memória – Pátio das Letras, em Faro, no dia 7 de Novembro, e contou com a presença do crítico de televisão Eduardo Cintra Torres. A propósito do lançamento, o Experimental entrevistou o fundador do curso de Ciências da Comunicação da UAlg.

O Experimental – Em que contexto surgiu a ideia para a elaboração deste livro?

Vítor Reia-Baptista – O livro é o resultado de um trabalho que vem de muito tempo atrás e que se vinha manifestando nos trabalhos do CICCOMA,  o centro de investigação que nós temos em matérias de comunicação. Organizámos várias jornadas de comunicação e numa delas, inclusivamente, foi apresentado um dos textos que figuram no livro logo nas primeiras jornadas, que é o texto de Arons de Carvalho sobre matérias de regulação e de regulamentação. Depois, enfim, o acervo por assim dizer foi crescendo e começou a tomar forma como um trabalho de pós-doutoramento de uma das investigadoras, a professora doutora Gabriela Borges, que tinha por tema a televisão de qualidade e, portanto, esse foi pólo aglutinador em torno dos trabalhos que ela estava a fazer de análise do Canal 2 da televisão pública para juntar outros textos de outros continentes que puderam dar esta perspectiva abrangente e multifacetada. Esse foi o contexto.

 
O Experimental – Este livro questiona discursos e práticas de qualidade na televisão. O que entende por qualidade em televisão?

V.R.B. – Isso é muito difícil de definir, como está bem patente nos diferentes textos. Não há um padrão de qualidade só. A qualidade em televisão pode ser entendida de variadíssimas formas e é-o entendida de variadíssimas formas consoante os contextos culturais, consoante os contextos geográficos, históricos. Não há forma de definir assim de um modo fácil e por isso mesmo é que o livro assumiu não a forma de um grande texto teórico sobre o assunto mas sim um somatório de pequenos textos que dão as diferentes perspectivas do que pode ser qualidade. Por exemplo, um programa que geralmente é considerado como de má qualidade em alguns círculos, estou-me a lembrar de alguns reality- shows, por exemplo, sei lá, o Big Brother ou coisas desse tipo, se for considerado em função de alguns parâmetros, depende dos parâmetros que se escolhem, mas se considerarmos os parâmetros formais e técnicos que dão azo ao programa, provavelmente ele não é de pouca qualidade. Portanto, programas deste tipo geralmente têm um cuidado muito grande com questões de iluminação, com questões de cromatismo, com questões de enquadramento, enfim, talvez até mais do que outros programas, e isso também justifica a grande aceitação que têm em grandes bases de público…

 
O Experimental – Mas está a falar de forma, não de conteúdo…

V.R.B. – Pois estou, está bem, mas não podemos separar, por isso é que eu lhe disse que não há só uma maneira de medir a qualidade e, portanto, para já não se pode separar a questão da forma do conteúdo. Isto foi apenas para dar um exemplo que, por absurdo um programa deste tipo, que geralmente é considerado como de baixa qualidade em termos de conteúdo, pode ser considerado de qualidade noutros contextos. Mas se ficarmos só pelo conteúdo então a questão ainda se torna mais difícil, porque aí depende do impacto e da força que determinados temas têm em determinadas situações, portanto, é de facto, uma questão difícil de definir e tem que ser vista em cada contexto. Não é possível definir qualidade em termos absolutos.

 
O Experimental – A dimensão pedagógica está presente nestes programas?

 
V.R.B. – Também está, mas não é a dimensão pedagógica assumida como é feito nos programas de caris educativo ou de raiz, ou seja, não é por ser um programa com objectivos educativos que tem qualidade, tipo programas da Universidade Aberta ou outra coisa qualquer, não é por isso. Se calhar se medíssemos esses programas com os mesmos critérios que há bocadinho estávamos a referir para os big brothers, os reality- shows, se calhar até íamos ver que esses programas são de muito menor qualidade, em termos formais. Agora, as dimensões pedagógicas existem em todos os tipos de programas. Todos, sem excepção. A partir da altura em que eles são públicos, em que as pessoas são expostas a esses programas, há ali mecanismos de percepção e de assimilação daquelas mensagens, enfim, daqueles conteúdos e daquelas formas e, portanto, têm uma dimensão pedagógica quer queiram quer não. Às vezes algumas das dimensões pedagógicas não são aquelas que nós achamos mais aconselháveis ou mais desejáveis, mas todos eles têm essas dimensões.

O Experimental – O que é que este livro traz de novo à investigação sobre este tema?

V.R.B. – Traz colocar a questão da qualidade em si nesta perspectiva, ou seja, não é novidade sabermos que a qualidade não é um valor em absoluto, a qualidade depende dos contextos em que ela é focada, mas, muitas vezes nós agimos como se isto fosse de modo absoluto. Muitas vezes, em questões de senso comum, nós dizemos de forma muito fácil, “isto é uma porcaria” ou “isto é muito bom”, enfim, sem nos preocuparmos a olhar para todas as dimensões. Para além disso, traz de novo o sistematizar algumas perspectivas diferentes vindas de quadrantes diferentes, nomeadamente geográficos e geográfico-culturais, como por exemplo, as perspectivas da América Latina (que são mais comuns na América Latina) e que nem sempre nós levamos em linha de conta e, portanto, somos muito etnocêntricos nestas coisas. Quando pensamos em qualidade quase sempre se pensa na BBC, é um exemplo que salta sempre à vista, ou um ou outro programa da National Geographic, ou coisas deste tipo e esquecemos que há muitos outros contextos em que é possível tentar aferir a qualidade, é difícil medi-la, mas é possível tentar aferi-la em função de todos estes elementos que de certo modo enformam os programas.

O Experimental – No capítulo IV do livro, intitulado Literacias, escreve um texto sobre as práticas televisivas em contexto lusófono. Faz sentido falar em contextos tão específicos na era da globalização?

V.R.B. – Faz, o contexto lusófono é apesar de tudo bastante global, em termos de população mundial o Brasil é praticamente um continente, mas também de diversidade geográfico-cultural, ou seja, aquilo que caracteriza de alguns contextos de língua portuguesa ou contextos lusófonos, se assim quisermos, também tem a ver com a própria utilização da língua. Há algumas questões comuns entre a forma de encarar a qualidade no Brasil, em Portugal, em Moçambique, onde se começam a dar os primeiros passos de televisão, enfim, ou em Macau, onde por exemplo, a televisão de Macau teve um papel importantíssimo como pólo aglutinador da comunidade lusófona pelo menos até à passagem administrativa para a China, mas mesmo hoje continua a ter uma marca cultural que é diferenciadora. Portanto, nesse sentido eu penso que tem nexo falar de contextos lusófonos. Depois, há um outro sentido também, que é o próprio mecanismo da globalização. Os próprios mecanismos da globalização se fazem sentir de modo bastante directo, basta referirmos a questão das telenovelas. O Brasil exporta telenovelas para todo o mundo e, portanto, exporta um modelo. Não sei se isso é positivo ou se é negativo, quer dizer, para os brasileiros é decididamente positivo em termos económicos, em termos de qualidade televisiva, não sei, era preciso, enfim, encarar isto de diferentes formas, como já vimos, mas não deixa de ser marcante. É marcante, nitidamente.

 
O Experimental – Quais são as extensões da iliteracia televisiva e de outros media?

V.R.B. – A literacia televisiva atinge todos os outros media, está presente em todos os media. A iliteracia também, é óbvio.

O Experimental – Fala-se muito da literacia na perspectiva do cidadão crítico e activo…

V.R.B. – A iliteracia televisiva…vamos lá ver… às vezes é difícil definir o que é literacia, aliás, não é às vezes, é sempre difícil. A definição mais consensual é aquela que junta três grandes perspectivas, que é a perspectiva cultural, ter algumas capacidades de contextualização cultural, a perspectiva crítica, ter algumas capacidades de análise e apreciação crítica e, a perspectiva criativa, ou seja, ter algumas capacidades pelo menos de entender as formas de criação, senão mesmo criá-las, ora, isto em televisão é difícil, televisão tipo broadcasting, mas por outro lado as pessoas utilizam os seus telemóveis, enfim, para gravar pequenos trechos etc. e portanto dão algumas mostras de criatividade que se podem ver noutras formas menos comum de televisão, como por exemplo, o You Tube, na Internet, coisas desse tipo. Mas se é difícil uma definição consensual de literacia, de iliteracia ainda é mais difícil, ou seja, teríamos de dizer que é a ausência de tudo isto. É difícil prever quais as consequências da iliteracia. Mas há uma que é relativamente consensual, que é um certo grau de alienação perante aquilo que é exposto.

O Experimental – Refere-se à passividade?

V.R.B. – A passividade tem mais a ver com o consumo em si, ou seja, com o acto de consumo, quer dizer temos que estar sentados no sofá, não fazer mais nada senão engordar à custa de batatas fritas e Coca-Cola, portanto, de forma passiva, mas as a passividade em termos intelectuais, que é a que mais me preocupa, acaba por gerar a alienação e, essa alienação seria portanto a consequência ou uma das consequências dessa iliteracia.

O Experimental – Acha que a regulamentação no domínio da literacia dos media pode combater mais eficazmente esse tipo de problemas?

 
V.R.B. – Depende, a regulamentação é necessária para que os meios convivam entre si e convivam com os seus consumidores. Portanto, há contratos não escritos que se estabelecem. Mas, há também quem diga que a auto-regulamentação funciona melhor do que a regulamentação propriamente dita. Sem cair em extremos de excessiva regulamentação que às vezes começa quase a raiar a censura, quase a tocar nos limites da censura e, sem cair também no extremo da ausência total de regulamentação que, pode gerar uma certa anarquia e uma certa concorrência desleal a todos os níveis, isso vê-se por vezes na Internet, enfim, nalguns contextos da Internet. Como é um meio extremamente poderoso eu diria que há a necessidade de alguma regulamentação. Quanto mais não seja por motivos económicos, mas também por alguns motivos de índole política e de ordem social. Agora, não sei é se alguns dos problemas de que estamos a falar, de qualidade e de literacia, se resolvem por via da regulamentação. Se formos para a via da regulamentação que geralmente é entendida como proibitiva, ou seja, determinados programas só podem passar em determinados contextos, a determinadas horas, com determinados enquadramentos, enfim, por aí não se resolve, porque isso só pode afastar alguns espectadores, de modo assim mais directo, de alguns programas, mas não resolve os problemas de literacia e os problemas de percepção…

 
O Experimental – É mais pela via da educação e da formação que se resolve este tipo de problemas…

V.R.B. – É obvio que é, é pela via da educação que se pode resolver.

 
O Experimental – O ano de 2008 foi o Ano Europeu do Diálogo Intercultural. De que modo os media, em particular a televisão, constituem um instrumento de promoção do diálogo intercultural?

V.R.B. – A literacia dos media é extremamente importante que tenha dimensões interculturais, porque nas sociedades que vivemos hoje, se não as tiver ela torna-se facilmente em iliteracia. Há bocadinho, quando falávamos dos aspectos lusófonos, estamos muito próximo disto. Quer dizer, se nós ficarmos só ocupados com a língua de Camões e a verdadeira língua, às vezes este discurso aparece, a defesa da língua, etc., estamos a colocar de fora imediatamente uma quantidade de pessoas que não falam a língua nesses termos, falam o português quebrado, às vezes quase crioulo e que, obviamente, também entram no contexto da literacia e, portanto, a literacia dos media tem que ter uma componente intercultural forçosamente muito forte, senão é uma literacia manca. É uma literacia com bastantes sintomas de iliteracia.

 
O Experimental – Qual é o papel e a responsabilidade da televisão e de outros media no exercício de uma cidadania responsável?

V.R.B. – Tem grandes responsabilidades, porque tem um grande poder de atracção.

 
O Experimental – Acha que uma literacia elevada comporta uma participação cívica elevada?
V.R.B. – Sim, em princípio, é essa a equação. Quanto mais elevados são os níveis de literacia dos cidadãos em qualquer matéria maior é a probabilidade que eles sejam participantes activos nessa matéria. Portanto, uma literacia cívica elevada geralmente dá cidadãos participantes. Uma iliteracia cívica elevada dá cidadãos passivos e alienados e afastados das questões da sociedade. Portanto, na literacia dos media também é a mesma coisa. Agora, a literacia dos media não é uma coisa única tal como a qualidade, é um somatório de muitas literacias. Não há literacia dos media se não houver literacia literária propriamente dita, se as pessoas não lerem jornais e livros…

 
O Experimental – Se não fizerem o contraste da informação…

V.R.B. – Se não puderem cruzar várias fontes de informação, não é só por saberem muito de televisão que vão ficar também mais literados em termos do consumo dos media. Portanto, é óbvio que a televisão tem uma responsabilidade própria, mas essa responsabilidade atinge outros sectores da sociedade em si.

 
O Experimental – Como surgiu o convite ao crítico de televisão Eduardo Cintra Torres para o lançamento deste livro?

V.R.B. – O livro já tinha sido lançado em Lisboa e tinha sido apresentado por um investigador, que é o professor doutor Rui Cádima, uma pessoa que escreveu muito sobre televisão, enfim, aqui em Faro não queríamos estar a repetir exactamente o mesmo evento e surgiu a ideia de convidar o Eduardo Cintra Torres porque o Eduardo Cintra Torres, primeiro é um critico de televisão, portanto, escreve todos os dias sobre matérias televisivas, pensa nessas matérias, reflecte sobre elas, mas para além disso é um homem que não tem fugido à polémica que sempre se gera em torno destas questões e, portanto, achámos que era extremamente interessante, embora ele tenha as suas opiniões, enfim, com as quais podemos concordar ou não, mas era extremamente interessante trazer uma pessoa que tem estado envolvida em grandes polémicas sobre esta matéria, não tem fugido delas, antes pelo contrário, tem respondido a essas polémicas e por outro lado, pelo próprio métier é obrigado a pensar nestas matérias todos os dias e a transpô-las para uma linguagem comum, porque às vezes os investigadores também ficam muito presos da sua linguagem um bocado esotérica. O crítico para ter alguma resposta e interesse dos seus leitores tem de o fazer com uma linguagem mais terra a terra, e portanto, achámos que era um bom contraponto à obra.

O Experimental – Muito obrigada. Não sei se esgotámos todas as questões…

Vítor Reia-Baptista – Pois não, nem podíamos, dava outro livro.

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Vítor Reia-Baptista é fundador e coordenador do curso de Ciências da Comunicação na Universidade do Algarve (UAlg). É ainda coordenador do grupo de investigação de Estudos Fílmicos, Artes Visuais e Comunicação do CIAC/ CICCOMA e membro do grupo de peritos da União Europeia sobre literacia dos media. Coordenou a equipa portuguesa nos projectos europeus Educaunet, Glocal Youth, Mediappro, Carta Europeia para uma Literacia dos Media e Euromeduc.

Anabela Lopes

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