Porto de desabrigo

Pescadores de Santa Luzia temem pela segurança das suas embarcações

«Aquilo é porto de abrigo?! Aquilo é porto de desabrigo, tem algum jeito de porto de abrigo aquilo? Aquilo não é nada, basta vir o próximo vendaval e os barcos andam todos à reboleta.»

São as palavras de Joaquim Gonçalves, um velho pescador que deixou o mar há mais de uma década e assiste, agora, à transformação da ria que conhece.

Segundo Carlos Bolhim, presidente da junta de freguesia de Santa Luzia, «foi sempre a luta dos pescadores, que se fizesse um novo porto de abrigo para os barcos, para os defender dos temporais, das correntes fortes deste braço de rio e, ao mesmo tempo, facilitar o acesso aos mesmos». Contudo, por ordem do Instituto Portuário de Transportes Marítimos (IPTM), a entrada e a dragagem dos barcos no interior do porto está interdita. «Construímos um porto de abrigo e colocámos os fíngaros, que é aquilo onde os barcos vão acostar, no lado de fora. Isto era para se fazer um movimento de terras e retirar todas aquelas terras que ficaram dentro do porto de abrigo, o que aconteceu foi que um estudo de impacto ambiental chumbou essa retirada de terras e os barcos não podem entrar pois correm o risco de bater no fundo», explica o autarca.

Para os pescadores, o porto de abrigo, construído na área do parque natural da Ria Formosa, revela um projecto mal arquitectado. António, pescador há 35 anos assiste inquieto aos últimos retoques da nova marina. Mal sabe ler as informações da placa que sinaliza a obra em curso, mas acena aos trabalhadores e enrola os engenheiros em palavrões roucos. Os seus 50 anos foram escritos no mar, não estudou nem quis ser mais, mas neste momento a sua revolta tem uma teoria e fundamento. «Fazem as coisas sem se aconselhar com os pescadores que tão fartos de ver isto, isto não é porto de abrigo não é nada. Isto tem muita corrente de água e não tem condições para por os barcos aí. Tá muito bonito, para a fotografia, para o turismo, chega-se aqui e isto é uma maravilha, agora, para os pescadores isto não serve para nada.»

Ainda por inaugurar, a obra acolhe já algumas embarcações que parecem passar ao lado desta polémica, mas a maioria da população e dos pescadores recusa-se a atracar na nova estrutura. A indignação cresce e começa a ganhar feições de protesto. Nátalia, comerciante num pequeno quiosque frente à ria conta ao Experimental que os pescadores querem mostrar que não há condições neste novo porto. «É tão simples quanto isto: se toda a gente fizer questão de não pôr, alguém há-de reparar e dizer gastaram-se não sei quantos milhares de euros para nada.»

Os homens entram e saem do mar ignorando o novo porto, mas a sua manifestação de desprezo parece estar a ser corrompida por pescadores de terras vizinhas. «O que está a acontecer é que estão a vir barcos da Fuseta e de Olhão e vêm acostar aqui. Estão a furar uma luta que é dos pescadores de Santa luzia. Ainda há dois dias um engenheiro do IPTM disse que se os barcos de fora podem acostar, os de Santa Luzia também podem», conta Carlos Bolhim.

O IPTM já admitiu a possibilidade de ajustes e mudanças na obra, mas a gestão do parque Natural da Ria Formosa também pesa na avaliação e demora a elaboração de um novo projecto.» Os desenhos, a aprovação, tudo isso demora e vai levar mais um aninho, pelo menos um ano», acrescenta o presidente.

Carlos Bolhim sublinha as palavras e acções dos pescadores e admite estar a fazer tudo para que a situação seja resolvida no interesse desses homens. A estes, restam as noites de vigia, as correntes e as tempestades, segurando amarras, com forças que já não têm.

Marco Maurício | Ana Catuna

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