Porto de desabrigo

Fevereiro 10, 2009

Pescadores de Santa Luzia temem pela segurança das suas embarcações

«Aquilo é porto de abrigo?! Aquilo é porto de desabrigo, tem algum jeito de porto de abrigo aquilo? Aquilo não é nada, basta vir o próximo vendaval e os barcos andam todos à reboleta.»

São as palavras de Joaquim Gonçalves, um velho pescador que deixou o mar há mais de uma década e assiste, agora, à transformação da ria que conhece.

Segundo Carlos Bolhim, presidente da junta de freguesia de Santa Luzia, «foi sempre a luta dos pescadores, que se fizesse um novo porto de abrigo para os barcos, para os defender dos temporais, das correntes fortes deste braço de rio e, ao mesmo tempo, facilitar o acesso aos mesmos». Contudo, por ordem do Instituto Portuário de Transportes Marítimos (IPTM), a entrada e a dragagem dos barcos no interior do porto está interdita. «Construímos um porto de abrigo e colocámos os fíngaros, que é aquilo onde os barcos vão acostar, no lado de fora. Isto era para se fazer um movimento de terras e retirar todas aquelas terras que ficaram dentro do porto de abrigo, o que aconteceu foi que um estudo de impacto ambiental chumbou essa retirada de terras e os barcos não podem entrar pois correm o risco de bater no fundo», explica o autarca.

Para os pescadores, o porto de abrigo, construído na área do parque natural da Ria Formosa, revela um projecto mal arquitectado. António, pescador há 35 anos assiste inquieto aos últimos retoques da nova marina. Mal sabe ler as informações da placa que sinaliza a obra em curso, mas acena aos trabalhadores e enrola os engenheiros em palavrões roucos. Os seus 50 anos foram escritos no mar, não estudou nem quis ser mais, mas neste momento a sua revolta tem uma teoria e fundamento. «Fazem as coisas sem se aconselhar com os pescadores que tão fartos de ver isto, isto não é porto de abrigo não é nada. Isto tem muita corrente de água e não tem condições para por os barcos aí. Tá muito bonito, para a fotografia, para o turismo, chega-se aqui e isto é uma maravilha, agora, para os pescadores isto não serve para nada.»

Ainda por inaugurar, a obra acolhe já algumas embarcações que parecem passar ao lado desta polémica, mas a maioria da população e dos pescadores recusa-se a atracar na nova estrutura. A indignação cresce e começa a ganhar feições de protesto. Nátalia, comerciante num pequeno quiosque frente à ria conta ao Experimental que os pescadores querem mostrar que não há condições neste novo porto. «É tão simples quanto isto: se toda a gente fizer questão de não pôr, alguém há-de reparar e dizer gastaram-se não sei quantos milhares de euros para nada.»

Os homens entram e saem do mar ignorando o novo porto, mas a sua manifestação de desprezo parece estar a ser corrompida por pescadores de terras vizinhas. «O que está a acontecer é que estão a vir barcos da Fuseta e de Olhão e vêm acostar aqui. Estão a furar uma luta que é dos pescadores de Santa luzia. Ainda há dois dias um engenheiro do IPTM disse que se os barcos de fora podem acostar, os de Santa Luzia também podem», conta Carlos Bolhim.

O IPTM já admitiu a possibilidade de ajustes e mudanças na obra, mas a gestão do parque Natural da Ria Formosa também pesa na avaliação e demora a elaboração de um novo projecto.» Os desenhos, a aprovação, tudo isso demora e vai levar mais um aninho, pelo menos um ano», acrescenta o presidente.

Carlos Bolhim sublinha as palavras e acções dos pescadores e admite estar a fazer tudo para que a situação seja resolvida no interesse desses homens. A estes, restam as noites de vigia, as correntes e as tempestades, segurando amarras, com forças que já não têm.

Marco Maurício | Ana Catuna

Profissões raras lutam por um lugar no mercado

Fevereiro 10, 2009

Pedro Valentim, um jovem sapateiro que contribui para que uma das profissões mais antigas e raras do mundo não desapareça, põe em prática técnicas artesanais no concelho do Cartaxo desde 2003.

Hoje em dia, muitas profissões que outrora vingaram na sociedade e eram o ganha-pão de muitas famílias são vistas como ultrapassadas, fora de moda, e estão condenadas à extinção. Com a revolução industrial os empregos que, até então, requeriam trabalhos manuais foram substituídos pelas máquinas industriais. A produtividade aumentou, com a capacidade de produzir grandes quantidades e com grande rapidez e eficácia, o que se traduziu num lucro para o patronato, mas o preço a pagar foi a perda de postos de trabalho. Entre modernizações e a criação de novos postos de trabalho, como no sector terciário, a população acabou por perder o interesse em profissões envelhecidas.

Ferrador, cantoneiro, carpinteiro, amola-tesouras, entre outras, embora raras, estas profissões são necessárias, e ninguém melhor do que Pedro Valentim para o poder confirmar, visto que com apenas vinte e quatro anos vinga na área de reparação de calçado. Pedro revelou ao Experimental que este gosto pelo calçado não foi, essencialmente, espontâneo, mas foi-lhe incutido pelo seu pai, que lhe ensinou tudo o que tinha aprendido com Lúcio Valentim, avô de Pedro. O jovem diz que o seu avô «era um sapateiro à antiga». «O meu avô fazia sapatos à mão e apenas utilizava os materiais básicos existentes na altura, como por exemplo, em vez da cola, que hoje em dia é indispensável para as novas gerações como eu, ele usava massa de sapateiro caseira», conta. Curioso é que quem seguiu as pisadas do velho sapateiro não foi o filho, mas sim o neto, talvez pelo facto de em jovem ter sido obrigado a ajudar o avô nas suas tarefas.

Ao longo de seis anos, o jovem sapateiro já abriu quatro estabelecimentos e, mais recentemente, investe na produção de calçado artesanal, pois afirma que «esta é uma área pouco explorada». Pedro Valentim confessa esperar «continuar a investir nesta profissão» e explica que é um ofício que não é fácil de aprender e é difícil de encontrar alguém que o ensine. Ainda assim, reconhece que é precisamente o facto do seu ofício ser raro que lhe dá margem para lucro. O jovem partilha com O Experimental que «o problema não é a procura, mas sim a falta de profissionais nesta área».

Ana Filipa Custódio e Marília Paiva

«A política não pode ser uma colecção de carreiras individuais»

Fevereiro 6, 2009

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O Experimental realizou uma entrevista electrónica a Francisco Louçã, com o objectivo de registar o seu percurso pessoal e político. Em vésperas da VI Convenção Nacional do Bloco de Esquerda, a conversa serviu de ponto de partida para compreender melhor as suas acções políticas.   

 Francisco Louçã, conhecido economista e político português, intervém na vida política do País desde antes de 1974. Aliás, em Dezembro de 72 esteve preso na Capela do Rato por ter participado na luta contra a ditadura e a guerra colonial num movimento estudantil.

Fundou o BE em 1999 e é membro da sua direcção desde então. Pertence à Assembleia da República, às comissões da área de economia e finanças e pertenceu, ainda, à comissão de liberdades, direitos e garantias.

A política esteve sempre presente na sua vida – «O meu avô foi fundador do PCP e viveu grande parte da sua vida exilado», conta – no entanto, o gosto pelo seu exercício «surgiu na luta contra a ditadura». «A omnipresença da guerra colonial e a censura» que se sentiam no regime salazarista «eram particularmente opressivas para os jovens. O 25 de Abril foi por isso um grito de alma e uma libertação.»

Fundou o Bloco de Esquerda (BE) em 1999, porque sentiu a «necessidade de mudar profundamente a esquerda portuguesa, de introduzir uma luta anti-globalização liberal e de construir uma nova hegemonia socialista, com políticas de justiça social». Apesar de ser um partido político com uma história muito recente, Francisco Louçã mostra-se satisfeito com a intervenção política que o BE tem vindo a desenvolver. «Ninguém é bom juiz em causa própria. Mas creio que o Bloco mudou o mapa da política portuguesa, e conseguiu grandes triunfos, na descriminalização da toxicodependência, na eliminação da perseguição às mulheres que abortaram, na reforma fiscal, na legalização das medicinas alternativas, no combate à desagregação do serviço nacional de saúde, na defesa da educação, na luta contra a precariedade», afirma.

 Enquanto líder do BE apresentou e defendeu inúmeros projectos de lei da sua bancada. Alguns foram aprovados, como a criminalização da violência doméstica e o acesso livre à contracepção de emergência, outros foram recusados, como a criação de um imposto sobre as grandes fortunas e regras para o levantamento do segredo bancário para efeitos de combate à fraude fiscal. Recentemente, o projecto de lei do Bloco de Esquerda que obrigaria os bancos a registarem todos os movimentos de capitais para o estrangeiro, incluindo “paraísos fiscais”, foi chumbado pelos partidos da oposição. O plano do Bloco de Esquerda obrigaria ao «registo dos movimentos transfronteiriços de capital cujo montante exceda os 10.000 euros, num ano fiscal» (segundo o IOL diário), que deveria ser obrigatoriamente comunicado ao Banco de Portugal e ao Ministério das Finanças. Várias foram as objecções apontadas, no entanto, segundo Francisco Louçã, o projecto foi reprovado porque «havia uma divergência política de fundo. O PS, PSD e CDS não aceitam que os capitais possam ser controlados e defendem in extremis o segredo dos negócios, contra as regras que a democracia tem de impor.»

No que respeita a outras questões sociais e culturais de relevo, quando questionado sobre se a eutanásia deveria ser uma medida a legalizar em Portugal, o líder do BE defende que deveria ser considerada na lei portuguesa. Já em relação à legalização da prostituição em Portugal, Francisco Louçã considera «que as prioridades são políticas de segurança social e de saúde que respeitam as pessoas que fazem prostituição».

O BE é hoje uma força política que continua a crescer. Contra a ideia de que se trata de um partido «fora do arco do poder», isto é, criado para ser da oposição, Francisco Louçã assegura que o Bloco tem condições para atingir o poder e aponta: «mal do país se as únicas alternativas de poder fossem o PSD e o PS ou o CDS, porque assim se saberia que o país não teria solução. Pelo contrário, a ruptura necessária com a política liberal exige novas políticas e novos programas de governo.»

Com a convergência à esquerda em agenda, Francisco Louçã foi acusado de, em conjunto com Manuel Alegre, ter preparado um comício do Trindade, agendado para 14 de Dezembro de 2008, na Aula Magna da reitoria da Universidade de Lisboa. No blogue “o tempo das cerejas”, Vítor Dias escrevia então «sobre estas afirmações [aquelas que terá prestado em entrevista a Judite de Sousa na RTP1 no dia 11 de Dezembro], creio que qualquer pessoa com um mínimo de experiência política e conhecimento das realidades políticas perceberá que se trata de uma cortina de sofismas destinada a esconder uma articulação política e organizativa entre Manuel Alegre e um partido político – BE -, deliberadamente concebida com intuitos discriminatórios em relação ao PCP…». Francisco Louçã defende-se destas acusações e argumenta que «cada um interpreta como quer. Mas, a unidade de tantos sectores de esquerda que nunca se tinham reunido impressionou o país e criou uma nova esperança. Ainda bem. Cabe quem quiser e não cabe quem não quiser.»

Sobre a relação dos portugueses com a política, sobre a confiança nos partidos, nos seus dirigentes e, mais concretamente, nos deputados, Francisco Louçã considera que o trabalho que o BE tem vindo a desenvolver permite-lhe acreditar que o partido que representa é uma excepção: «creio que os [deputados] do Bloco são reconhecidamente uma excepção, trabalham intensamente, correspondem-se com as pessoas, prestam contas, vão à luta e são respeitados pela população».

Doutorado em economia, Francisco Louçã é professor associado na Universidade Técnica de Lisboa e autor de artigos científicos galardoados. Tem apresentado conferências um pouco por toda a Europa, na América do Sul e nos EUA. É um dos economistas portugueses com mais artigos e livros publicados e amplamente traduzidos. Actualmente, encontra-se a concluir um manual de economia juntamente com José Maria Castro Caldas.

Perante o panorama económico português, considera que a tão falada crise se trata da «mais grave recessão desde há um século, e é provocada pela ganância social, pela sobre acumulação, pela sobre produção e pela especulação sem freio». Revela, ainda, que uma das maiores desilusões que teve enquanto líder do BE foi verificar «a incapacidade do governo em responder ao desemprego, contrastando com a sua solícita intervenção para apoiar os bancos falidos».

Enquanto professor universitário, quando questionado sobre a motivação dos estudantes responde senti-la, sobretudo por parte das alunas, fazendo notar que o papel da mulher na sociedade continua a evoluir e a crescer.

Francisco Louçã acredita e aposta na política. Pretende levar o BE a fazer a diferença no panorama político português. «A política não pode ser uma colecção de carreiras individuais mas, sim uma responsabilidade política colectiva e clara.»

Marta Alves

Créditos fotografia: Esquerda.Net

Qualidade na televisão

Janeiro 26, 2009

«Não é possível definir qualidade em termos absolutos»

À conversa com Vítor Reia-Baptista sobre o livro Discursos e Práticas de Qualidade na Televisão

foto-vrb_layer-1Discursos e Práticas de Qualidade na Televisão é uma antologia organizada pelos docentes da Universidade do Algarve (UAlg) Gabriela Borges e Vítor Reia-Baptista que propõe uma discussão alargada sobre o conceito de qualidade na televisão. Sistematizando diferentes enfoques e práticas em contexto lusófono, debruça-se ainda sobre investigações que estão a ser desenvolvidas em Portugal, Espanha, Argentina, México, Inglaterra e Itália. O lançamento oficial do livro teve lugar no Espaço de Memória – Pátio das Letras, em Faro, no dia 7 de Novembro, e contou com a presença do crítico de televisão Eduardo Cintra Torres. A propósito do lançamento, o Experimental entrevistou o fundador do curso de Ciências da Comunicação da UAlg.

O Experimental – Em que contexto surgiu a ideia para a elaboração deste livro?

Vítor Reia-Baptista – O livro é o resultado de um trabalho que vem de muito tempo atrás e que se vinha manifestando nos trabalhos do CICCOMA,  o centro de investigação que nós temos em matérias de comunicação. Organizámos várias jornadas de comunicação e numa delas, inclusivamente, foi apresentado um dos textos que figuram no livro logo nas primeiras jornadas, que é o texto de Arons de Carvalho sobre matérias de regulação e de regulamentação. Depois, enfim, o acervo por assim dizer foi crescendo e começou a tomar forma como um trabalho de pós-doutoramento de uma das investigadoras, a professora doutora Gabriela Borges, que tinha por tema a televisão de qualidade e, portanto, esse foi pólo aglutinador em torno dos trabalhos que ela estava a fazer de análise do Canal 2 da televisão pública para juntar outros textos de outros continentes que puderam dar esta perspectiva abrangente e multifacetada. Esse foi o contexto.

 
O Experimental – Este livro questiona discursos e práticas de qualidade na televisão. O que entende por qualidade em televisão?

V.R.B. – Isso é muito difícil de definir, como está bem patente nos diferentes textos. Não há um padrão de qualidade só. A qualidade em televisão pode ser entendida de variadíssimas formas e é-o entendida de variadíssimas formas consoante os contextos culturais, consoante os contextos geográficos, históricos. Não há forma de definir assim de um modo fácil e por isso mesmo é que o livro assumiu não a forma de um grande texto teórico sobre o assunto mas sim um somatório de pequenos textos que dão as diferentes perspectivas do que pode ser qualidade. Por exemplo, um programa que geralmente é considerado como de má qualidade em alguns círculos, estou-me a lembrar de alguns reality- shows, por exemplo, sei lá, o Big Brother ou coisas desse tipo, se for considerado em função de alguns parâmetros, depende dos parâmetros que se escolhem, mas se considerarmos os parâmetros formais e técnicos que dão azo ao programa, provavelmente ele não é de pouca qualidade. Portanto, programas deste tipo geralmente têm um cuidado muito grande com questões de iluminação, com questões de cromatismo, com questões de enquadramento, enfim, talvez até mais do que outros programas, e isso também justifica a grande aceitação que têm em grandes bases de público…

 
O Experimental – Mas está a falar de forma, não de conteúdo…

V.R.B. – Pois estou, está bem, mas não podemos separar, por isso é que eu lhe disse que não há só uma maneira de medir a qualidade e, portanto, para já não se pode separar a questão da forma do conteúdo. Isto foi apenas para dar um exemplo que, por absurdo um programa deste tipo, que geralmente é considerado como de baixa qualidade em termos de conteúdo, pode ser considerado de qualidade noutros contextos. Mas se ficarmos só pelo conteúdo então a questão ainda se torna mais difícil, porque aí depende do impacto e da força que determinados temas têm em determinadas situações, portanto, é de facto, uma questão difícil de definir e tem que ser vista em cada contexto. Não é possível definir qualidade em termos absolutos.

 
O Experimental – A dimensão pedagógica está presente nestes programas?

 
V.R.B. – Também está, mas não é a dimensão pedagógica assumida como é feito nos programas de caris educativo ou de raiz, ou seja, não é por ser um programa com objectivos educativos que tem qualidade, tipo programas da Universidade Aberta ou outra coisa qualquer, não é por isso. Se calhar se medíssemos esses programas com os mesmos critérios que há bocadinho estávamos a referir para os big brothers, os reality- shows, se calhar até íamos ver que esses programas são de muito menor qualidade, em termos formais. Agora, as dimensões pedagógicas existem em todos os tipos de programas. Todos, sem excepção. A partir da altura em que eles são públicos, em que as pessoas são expostas a esses programas, há ali mecanismos de percepção e de assimilação daquelas mensagens, enfim, daqueles conteúdos e daquelas formas e, portanto, têm uma dimensão pedagógica quer queiram quer não. Às vezes algumas das dimensões pedagógicas não são aquelas que nós achamos mais aconselháveis ou mais desejáveis, mas todos eles têm essas dimensões.

O Experimental – O que é que este livro traz de novo à investigação sobre este tema?

V.R.B. – Traz colocar a questão da qualidade em si nesta perspectiva, ou seja, não é novidade sabermos que a qualidade não é um valor em absoluto, a qualidade depende dos contextos em que ela é focada, mas, muitas vezes nós agimos como se isto fosse de modo absoluto. Muitas vezes, em questões de senso comum, nós dizemos de forma muito fácil, “isto é uma porcaria” ou “isto é muito bom”, enfim, sem nos preocuparmos a olhar para todas as dimensões. Para além disso, traz de novo o sistematizar algumas perspectivas diferentes vindas de quadrantes diferentes, nomeadamente geográficos e geográfico-culturais, como por exemplo, as perspectivas da América Latina (que são mais comuns na América Latina) e que nem sempre nós levamos em linha de conta e, portanto, somos muito etnocêntricos nestas coisas. Quando pensamos em qualidade quase sempre se pensa na BBC, é um exemplo que salta sempre à vista, ou um ou outro programa da National Geographic, ou coisas deste tipo e esquecemos que há muitos outros contextos em que é possível tentar aferir a qualidade, é difícil medi-la, mas é possível tentar aferi-la em função de todos estes elementos que de certo modo enformam os programas.

O Experimental – No capítulo IV do livro, intitulado Literacias, escreve um texto sobre as práticas televisivas em contexto lusófono. Faz sentido falar em contextos tão específicos na era da globalização?

V.R.B. – Faz, o contexto lusófono é apesar de tudo bastante global, em termos de população mundial o Brasil é praticamente um continente, mas também de diversidade geográfico-cultural, ou seja, aquilo que caracteriza de alguns contextos de língua portuguesa ou contextos lusófonos, se assim quisermos, também tem a ver com a própria utilização da língua. Há algumas questões comuns entre a forma de encarar a qualidade no Brasil, em Portugal, em Moçambique, onde se começam a dar os primeiros passos de televisão, enfim, ou em Macau, onde por exemplo, a televisão de Macau teve um papel importantíssimo como pólo aglutinador da comunidade lusófona pelo menos até à passagem administrativa para a China, mas mesmo hoje continua a ter uma marca cultural que é diferenciadora. Portanto, nesse sentido eu penso que tem nexo falar de contextos lusófonos. Depois, há um outro sentido também, que é o próprio mecanismo da globalização. Os próprios mecanismos da globalização se fazem sentir de modo bastante directo, basta referirmos a questão das telenovelas. O Brasil exporta telenovelas para todo o mundo e, portanto, exporta um modelo. Não sei se isso é positivo ou se é negativo, quer dizer, para os brasileiros é decididamente positivo em termos económicos, em termos de qualidade televisiva, não sei, era preciso, enfim, encarar isto de diferentes formas, como já vimos, mas não deixa de ser marcante. É marcante, nitidamente.

 
O Experimental – Quais são as extensões da iliteracia televisiva e de outros media?

V.R.B. – A literacia televisiva atinge todos os outros media, está presente em todos os media. A iliteracia também, é óbvio.

O Experimental – Fala-se muito da literacia na perspectiva do cidadão crítico e activo…

V.R.B. – A iliteracia televisiva…vamos lá ver… às vezes é difícil definir o que é literacia, aliás, não é às vezes, é sempre difícil. A definição mais consensual é aquela que junta três grandes perspectivas, que é a perspectiva cultural, ter algumas capacidades de contextualização cultural, a perspectiva crítica, ter algumas capacidades de análise e apreciação crítica e, a perspectiva criativa, ou seja, ter algumas capacidades pelo menos de entender as formas de criação, senão mesmo criá-las, ora, isto em televisão é difícil, televisão tipo broadcasting, mas por outro lado as pessoas utilizam os seus telemóveis, enfim, para gravar pequenos trechos etc. e portanto dão algumas mostras de criatividade que se podem ver noutras formas menos comum de televisão, como por exemplo, o You Tube, na Internet, coisas desse tipo. Mas se é difícil uma definição consensual de literacia, de iliteracia ainda é mais difícil, ou seja, teríamos de dizer que é a ausência de tudo isto. É difícil prever quais as consequências da iliteracia. Mas há uma que é relativamente consensual, que é um certo grau de alienação perante aquilo que é exposto.

O Experimental – Refere-se à passividade?

V.R.B. – A passividade tem mais a ver com o consumo em si, ou seja, com o acto de consumo, quer dizer temos que estar sentados no sofá, não fazer mais nada senão engordar à custa de batatas fritas e Coca-Cola, portanto, de forma passiva, mas as a passividade em termos intelectuais, que é a que mais me preocupa, acaba por gerar a alienação e, essa alienação seria portanto a consequência ou uma das consequências dessa iliteracia.

O Experimental – Acha que a regulamentação no domínio da literacia dos media pode combater mais eficazmente esse tipo de problemas?

 
V.R.B. – Depende, a regulamentação é necessária para que os meios convivam entre si e convivam com os seus consumidores. Portanto, há contratos não escritos que se estabelecem. Mas, há também quem diga que a auto-regulamentação funciona melhor do que a regulamentação propriamente dita. Sem cair em extremos de excessiva regulamentação que às vezes começa quase a raiar a censura, quase a tocar nos limites da censura e, sem cair também no extremo da ausência total de regulamentação que, pode gerar uma certa anarquia e uma certa concorrência desleal a todos os níveis, isso vê-se por vezes na Internet, enfim, nalguns contextos da Internet. Como é um meio extremamente poderoso eu diria que há a necessidade de alguma regulamentação. Quanto mais não seja por motivos económicos, mas também por alguns motivos de índole política e de ordem social. Agora, não sei é se alguns dos problemas de que estamos a falar, de qualidade e de literacia, se resolvem por via da regulamentação. Se formos para a via da regulamentação que geralmente é entendida como proibitiva, ou seja, determinados programas só podem passar em determinados contextos, a determinadas horas, com determinados enquadramentos, enfim, por aí não se resolve, porque isso só pode afastar alguns espectadores, de modo assim mais directo, de alguns programas, mas não resolve os problemas de literacia e os problemas de percepção…

 
O Experimental – É mais pela via da educação e da formação que se resolve este tipo de problemas…

V.R.B. – É obvio que é, é pela via da educação que se pode resolver.

 
O Experimental – O ano de 2008 foi o Ano Europeu do Diálogo Intercultural. De que modo os media, em particular a televisão, constituem um instrumento de promoção do diálogo intercultural?

V.R.B. – A literacia dos media é extremamente importante que tenha dimensões interculturais, porque nas sociedades que vivemos hoje, se não as tiver ela torna-se facilmente em iliteracia. Há bocadinho, quando falávamos dos aspectos lusófonos, estamos muito próximo disto. Quer dizer, se nós ficarmos só ocupados com a língua de Camões e a verdadeira língua, às vezes este discurso aparece, a defesa da língua, etc., estamos a colocar de fora imediatamente uma quantidade de pessoas que não falam a língua nesses termos, falam o português quebrado, às vezes quase crioulo e que, obviamente, também entram no contexto da literacia e, portanto, a literacia dos media tem que ter uma componente intercultural forçosamente muito forte, senão é uma literacia manca. É uma literacia com bastantes sintomas de iliteracia.

 
O Experimental – Qual é o papel e a responsabilidade da televisão e de outros media no exercício de uma cidadania responsável?

V.R.B. – Tem grandes responsabilidades, porque tem um grande poder de atracção.

 
O Experimental – Acha que uma literacia elevada comporta uma participação cívica elevada?
V.R.B. – Sim, em princípio, é essa a equação. Quanto mais elevados são os níveis de literacia dos cidadãos em qualquer matéria maior é a probabilidade que eles sejam participantes activos nessa matéria. Portanto, uma literacia cívica elevada geralmente dá cidadãos participantes. Uma iliteracia cívica elevada dá cidadãos passivos e alienados e afastados das questões da sociedade. Portanto, na literacia dos media também é a mesma coisa. Agora, a literacia dos media não é uma coisa única tal como a qualidade, é um somatório de muitas literacias. Não há literacia dos media se não houver literacia literária propriamente dita, se as pessoas não lerem jornais e livros…

 
O Experimental – Se não fizerem o contraste da informação…

V.R.B. – Se não puderem cruzar várias fontes de informação, não é só por saberem muito de televisão que vão ficar também mais literados em termos do consumo dos media. Portanto, é óbvio que a televisão tem uma responsabilidade própria, mas essa responsabilidade atinge outros sectores da sociedade em si.

 
O Experimental – Como surgiu o convite ao crítico de televisão Eduardo Cintra Torres para o lançamento deste livro?

V.R.B. – O livro já tinha sido lançado em Lisboa e tinha sido apresentado por um investigador, que é o professor doutor Rui Cádima, uma pessoa que escreveu muito sobre televisão, enfim, aqui em Faro não queríamos estar a repetir exactamente o mesmo evento e surgiu a ideia de convidar o Eduardo Cintra Torres porque o Eduardo Cintra Torres, primeiro é um critico de televisão, portanto, escreve todos os dias sobre matérias televisivas, pensa nessas matérias, reflecte sobre elas, mas para além disso é um homem que não tem fugido à polémica que sempre se gera em torno destas questões e, portanto, achámos que era extremamente interessante, embora ele tenha as suas opiniões, enfim, com as quais podemos concordar ou não, mas era extremamente interessante trazer uma pessoa que tem estado envolvida em grandes polémicas sobre esta matéria, não tem fugido delas, antes pelo contrário, tem respondido a essas polémicas e por outro lado, pelo próprio métier é obrigado a pensar nestas matérias todos os dias e a transpô-las para uma linguagem comum, porque às vezes os investigadores também ficam muito presos da sua linguagem um bocado esotérica. O crítico para ter alguma resposta e interesse dos seus leitores tem de o fazer com uma linguagem mais terra a terra, e portanto, achámos que era um bom contraponto à obra.

O Experimental – Muito obrigada. Não sei se esgotámos todas as questões…

Vítor Reia-Baptista – Pois não, nem podíamos, dava outro livro.

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Vítor Reia-Baptista é fundador e coordenador do curso de Ciências da Comunicação na Universidade do Algarve (UAlg). É ainda coordenador do grupo de investigação de Estudos Fílmicos, Artes Visuais e Comunicação do CIAC/ CICCOMA e membro do grupo de peritos da União Europeia sobre literacia dos media. Coordenou a equipa portuguesa nos projectos europeus Educaunet, Glocal Youth, Mediappro, Carta Europeia para uma Literacia dos Media e Euromeduc.

Anabela Lopes

Tomada de Posse da Associação de Estudantes

Janeiro 23, 2009

Repórter do Experimental esteve na cerimónia de Tomada de Posse dos novos Órgãos Dirigentes da Associação Académica da UAlg, a 9 de Janeiro

Encontro-me na Faculdade de Economia, em Gambelas, para assistir a uma Assembleia que tem como propósito a tomada de posse da Associação Académica (AAUAlg) por parte da lista vencedora.

À entrada deparo-me com um amontoado de gente maioritariamente trajada, uma visão pintada de azul e de branco em contraste com o cinzento das paredes da Faculdade.

Misturo-me com a multidão e entre um cumprimento e outro vou passando as portas e os corredores até chegar ao Auditório onde se iria dar a dita Assembleia. Sento-me perto de dois alunos da Escola Superior de Educação (ESE) e reparo que somos os únicos da ESE no meio de tantos alunos da Universidade. O início da Assembleia começa com as assinaturas de todos os novos membros da Associação e respectivos Núcleos Pedagógicos.

A primeira pessoa a subir ao púlpito é o reitor da UAlg. João Guerreiro sustenta o seu discurso em vários pontos. Salienta a crise económica que se passa no país e no mundo, evoca a importância dos estudantes para a cidade de Faro e realça a forma como a Associação Académica e o seu presidente, durante dois anos, influenciaram de forma positiva a vida académica. Dirigindo-se a Pedro Barros, o reitor da UAlg acaba o seu discurso de uma forma mais íntima, demonstrando o seu apreço e gratidão. Antes de regressar ao seu lugar abraça de forma amiga o presidente cessante.

Também o presidente da Câmara Municipal de Faro quis deixar a sua opinião positiva sobre a presença dos estudantes nesta cidade universitária e sobre a boa actuação da Associação, tanto a nível de organização de eventos académicos como de acções de cariz social. Entre discursos, dá-se continuação às assinaturas dos membros da AAUAlg.

A sala onde se ouviam murmúrios cede então ao silêncio para se ouvir um dos depoimentos mais esperados da tarde: o ex-presidente da AAUAlg. Pedro Barros começa por fazer uma revisão desta sua experiência, um pouco nervoso e um tanto emocionado, referindo alguns episódios e situações do seu mandato. Relata como cresceu com esta presidência e como foi feliz ao fazê-lo, apesar de nem sempre ter sido um mar de rosas. Para finalizar, passa aos agradecimentos, começando por agradecer aos seus companheiros e amigos da Associação, à câmara municipal, ao reitor, a alguns professores, às empresas que colaboraram, e às que não colaboraram, mas que, como refere: «ajudou-nos a crescer», aos amigos de sempre e, com as lágrimas nos olhos, à mãe e irmão que lhe «deram muita força e sem eles não estava aqui».

Terminado o discurso, o público aplaude de pé. Ouvem-se rumores que traduzem o grande carinho da academia por este jovem lutador que tanto fez pelo seu bom funcionamento. No ecrã, um vídeo mostra imagens suas e dos outros membros em vários momentos de prazer, lazer e até de alguns momentos menos bons. Entre alguns risos, devido a cenas cómicas, muitos que assistiam emocionaram-se de tal forma que não aguentaram as lágrimas.

Emoções ao rubro, segue-se outro momento alto da noite: a tomada de posse. Pedro Barros cede o seu lugar a Eduardo Almeida. Após um grande abraço e algumas fotografias, Pedro Barros senta-se, deixando o púlpito a Eduardo Almeida. O novo presidente da AAUAlg agradece a todos os que lhe depositaram este voto de confiança e que garante que vai tentar continuar o bom trabalho feito pela antiga Associação.

É de novo com risos que acaba a assembleia, ao ritmo de um vídeo que brinca, de certa forma, com a Associação e com o que se lá se faz. O vídeo acaba. Os lugares vão focando desocupados, aos poucos, acabando a sala por ficar totalmente vazia.

À porta do anfiteatro amontoam-se novamente as figuras pessoas trajadas, em volta dos comes e bebes, recordando e planeando projectos.

Entre uma conversa e outra, um cigarro e outro, os estudantes entram nos seus carros e deixam o campus de Gambelas, tremelicando de frio e pensando já no jantar que, para muitos, se iria realizar no Ribatejano.

Tânia Rosado

Cannabis ruma à legalização?

Janeiro 23, 2009

Constantemente ouvimos falar de drogas leves ou pesadas, discute-se o seu verdadeiro alcance, procura-se saber se a cannabis vicia e quais as suas verdadeiras consequências.

A legalização das designadas drogas leves, mais especificamente da cannabis, está na ordem do dia e tem vindo a ser debatida em vários países. Que consequências para a sociedade trará a legalização?

A cannabis tem por si efeitos positivos e negativos. Aumenta a socialização entre as pessoas, diminui o medo e o stress, provoca uma constante sensação de bem-estar, no entanto, é obvio que quando se fala em consumir cannabis tem que ser em proporções ajustadas para não transformar os benefícios em malefícios. Diogo Bonani, estudante do ensino secundário, apesar de consumidor mostra-se dubitativo acerca da legalização «como consumidor sou a favor, mas sei perfeitamente os problemas que as drogas leves trazem». Já Luís Soares, estudante universitário sem qualquer contacto com a cannabis, defende que «a legalização irá trazer menor consumo, pois como toda a gente sabe o fruto proibido é o mais apetecido».

O lado mais negativo da cannabis é talvez os efeitos que provoca no cérebro, que no entanto, são menores que os das drogas designadas como pesadas, pois não são tão perigosas, têm efeitos menos potentes, mais controláveis e menos susceptíveis de causar dependência. Para Diogo Bonani , «diferença é nos efeitos que causam e também que as drogas pesadas para além de viciar mais facilmente criam mesmo dependência física e psíquica» , acrescentando que começou por consumir cannabis «por pura diversão entre o seu grupo de amigos» e que agora consome porque caiu «nessa rotina».

Outro aspecto negativo da cannabis é que pode provocar doenças como cancro, no entanto também alguns alimentos podem provocar cancro quando são tomados em quantidades exageradas, isto para não falar noutras substâncias altamente destrutivas e que são perfeitamente legais como o tabaco e o álcool. Segundo Luís Soares «o consumo em excesso de qualquer que seja a substância pode causar problemas». No entanto, para o estudante universitário, este problema pode agravar-se pois «é uma substância sem controlo de qualidade» e assim a única solução para um controlo de qualidade com maior rigor é a legalização para assim o estado controlar a qualidade, a quantidade e por consequência diminuir o tráfico.

Junto da opinião pública, a cannabis encontra-se em desvantagem perante outras drogas que são tanto ou mais destrutivas, como o tabaco e, essencialmente, o álcool, principais causas de morte do mundo, mas que continuam legais. Quando questionados sobre o que pensam acerca das drogas leves, as opiniões são claramente contraditórias. Para Diogo Bonani «não fazem mal nenhum, pelo contrário ajudam a estar relaxado», enquanto que Luís Soares vê a cannabis como «uma droga leve que, juntamente com outras drogas leves, quando consumida em excesso causa dependência».

Visto isto, e olhando a comparações, torna-se necessário de uma vez por todas mudar para eliminar os preconceitos existentes e ver as coisas como elas realmente são, tendo em conta os factos.

Ricardo Teresa  | Tiago Sacramento

De estudantes para estudantes

Janeiro 14, 2009

Prémio Nacional de Jornalismo Universitário

A História da Internet

Janeiro 12, 2009

O Público liga para o blogue Infografando que liga a vimeo.com que publica o documentário animado History of the Internet.

2009 é Ano Internacional da Astronomia

Janeiro 11, 2009

The Universe, Yours to discover é o mote

astronomia1A 20 de Dezembro de 2007, a Unesco e a União Astronómica Internacional escolheram o ano de 2009 como o Ano Internacional da Astronomia (AIA), celebrando assim os 400 anos desde que Galileu Galilei olhou pela primeira vez por um telescópio para os céus. Será uma celebração a nível global da astronomia e dos seus contributos, tanto para a cultura como para a sociedade.

 A cerimónia oficial de abertura do Ano Internacional da Astronomia 2009 (AIA) terá lugar em Paris, nos dias 15 e 16 de Janeiro, numa colaboração entre 135 países.

Segundo a Presidente da União Astronómica Internacional, Catherine Cesarsky, «o Ano Internacional da Astronomia 2009 permite a todas as nações do Mundo uma oportunidade de participar nesta extraordinária revolução científica e tecnológica (…) 135 países associaram-se ao evento, todos juntos numa direcção comum, tornar a astronomia acessível ao público. O AIA 2009 vai reforçar os contactos já existentes entre o ensino das ciências e a carreira científica, estimulando a longo prazo um aumento das escolhas dos estudantes por áreas científicas e tecnológicas e uma valorização da aprendizagem ao longo da vida».

A Astronomia é uma das ciências mais antigas da Humanidade. Nasceu na primeira vez que o Homem se deslumbrou a olhar para as estrelas nos céus escuro. Quase todas as culturas da História estão marcadas pela Astronomia. O seu impacto sobre a ciência e a cultura tem sido bastante profundo e tem sido uma das nossas fontes para descobrir mais sobre a vida, o Universo e o nosso lugar nele.

À Conquista do Espaço

Há menos de cem anos, viajar no Espaço e explorar o Universo era pura ficção científica, fruto de algumas mentes que, qual profetas do futuro, visionaram um futuro no qual se iria viajar pelo espaço. A ficção começa a tornar-se realidade. Há cerca de um século, mal se tinha conhecimento da nossa própria galáxia, a Via Láctea. Hoje vivemos na mais marcante época de descobertas astronómicas da História.

Actualmente sabe-se que o Universo é composto por biliões de galáxias e que tudo teve início há cerca de 14 biliões de anos. Há um século atrás, estudávamos os céus a olho-nu e com telescópios ópticos, hoje em dia, observamos o Universo utilizando telescópios com avançados detectores digitais, tanto na Terra como em órbitra, com raios gama de alta energia e ondas de frequência de rádio e, por tudo isto, a nossa visão do Universo mudou bastante.

O Ano Internacional da Astronomia irá promover a astronomia, bem como a sua contribuição para as culturas e para os povos. O objectivo é estimular o interesse mundial nas ciências e na astronomia, no ano que comemorará os 400 anos desde que Galileu Galilei utilizou um telescópio refractor e utilizou-o para fazer observações astronómicas que iriam ter um contributo importantíssimo para revolucionar a forma como entendemos o Universo que nos rodeia.

Quando Galileu, filósofo, astrónomo, físico e matemático italiano do século XVI, olhou para o espaço pela primeira vez, descobriu montanhas na Lua, quatro satélites de Júpiter, os anéis de Saturno e até as estrelas da Via Láctea. Desde então a Humanidade tem vindo a olhar para os céus com uma curiosidade tão grande que os levou a quererem ir cada vez mais longe.

Em 1969, três séculos depois, a missão Apollo 11 chegava à Lua. Foram enviadas diversos satélites e sondas, entre elas, a Pionner e a Voyager, que não se aproximarão de qualquer estrela nos próximos 40 000 anos ou mais. Na sonda Pionner foi desenhado uma imagem na placa de metal, que é considerada uma mensagem fácil de interpretar por qualquer forma de vida que a possa encontrar, e que contém uma espécie de mapa da Via Láctea e do planeta Terra e a imagem de dois seres humanos. Embora ambas já estejam para lá do planeta mais distante do Sistema Solar, continuarão a sua longa viagem por entre poeiras espaciais, nebulosas, supergigantes e buracos negros.

Ano Internacional da Astronomia em Portugal

O AIA 2009 é uma inciativa destinada a todos os cidadãos do Mundo. Pretende incentivar o entusiasmo pela descoberta e pela partilha do conhecimento pelo Universo, atraindo os povos e as nações para um melhor entendimento desta magnífica ciência. Em Portugal, a organização do AIA 2009 está a cargo da Sociedade Portuguesa de Astronomia (SPA), que nomeou uma Comissão Nacional para coordenar as diferentes actividades que irão percorrer o País, coordenada pelo astrónomo João Fernandes (da Universidade de Coimbra), em conjunto com especialistas em comunicação e educação em Astronomia, de modo a organizar as actividades relativas ao AIA. A cerimónia oficial de abertura terá lugar na Casa da Música, no Porto, a 31 de Janeiro, e conta com o apoio da Agência Nacional Ciência Viva, da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação para a Ciência e Tecnologia.
A Comissão Nacional do AIA tem vindo a trabalhar, nos últimos anos, com várias instituições portuguesas (centros de investigação em astronomia e astrofísica, observatórios astronómicos, museus de ciência e planetários, escolas), com o objectivo de dinamizar a realizaçção de actividades astronómicas durante 2009. Ao todo existem 230 instituições associadas ao AIA em Portugal.
O Ano Internacional da Astronomia celebra, assim, o grande avanço que foi a utilização do telescópio para observações astronómicas por Galileu e o seu percurso desde então, sensibilizando para uma maior participação e acção de todos para descobrir mais sobre a Humanidade, o Universo e o nosso lugar nele.

A iniciativa internacional celebra também a nossa existência num Universo com mais de cem biliões de Galáxias, cada uma com milhões de milhares de estrelas, e que avistamos deste pequeno planeta azul. Há um século atrás, nunca se pensaria que o Homem chegaria à Lua e muito menos que se enviasse sondas para lá do Sistema Solar.

A Humanidade começa explorar cada vez mais o Universo, e o interesse tem vindo a aumentar. “Esta é a era de ouro da astronomia”, comenta a Presidente da União Astronómica Internacional, “graças em grande parte aos enormes avanços tecnológicos. A Astronomia é uma ciência que aproveita a tecnologia ao máximo, e também a ajuda a avançar, sempre indo aos extremos da electrónica, da óptica e da mecânica”. Como será daqui a mais cem anos? “The Universe, Yours to Discover“.

Galáxia de Andrómeda – Também conhecida por Messier 31, uma galáxia espiral pertencente ao mesmo grupo de galáxias da Via Láctea

Galáxia de Andrómeda – Também conhecida por Messier 31, uma galáxia espiral pertencente ao mesmo grupo de galáxias da Via Láctea

 

Tiago Sacramento

Créditos imagens: Nasa (space.com) e http://www.astronomia2009.pt

Aterrem em Portugal recupera história da aviação portuguesa

Janeiro 11, 2009

Nas mais de 300 páginas do livro Aterrem em Portugal! – Aviadores e aviões beligerantes em Portugal na II guerra Mundial, do jornalista Carlos Guerreiro, o ponto de partida são os relatos de inúmeras histórias de aterragens forçadas.

 O pré-lançamento de Aterrem em Portugal realizou-se no dia 24 de Novembro, no Clube Farense, na capital algarvia. Carlos Guerreiro, jornalista correspondente da TVI em Faro e com um passado jornalístico em diversas áreas da comunicação, afirma ao Experimental que «não existe uma razão» para a construção do livro. «Sempre fui um apaixonado pela aviação da II Guerra Mundial», revela o autor, explicando que «muitas influências vêm da infância».

Aterrem em Portugal narra a situação aérea de Portugal no contexto da II Guerra Mundial através de relatos na primeira pessoa de alguns aviadores estrangeiros que, por qualquer motivo, tiveram de terminar a sua viagem em Portugal e também através de documentos nacionais e internacionais. «O que vão ler é mais um conjunto de reportagens do que uma análise histórica», declara o autor na introdução, explicando que se trata sobretudo de um trabalho de investigação jornalística.

Histórias como a de “Bill” Littlejohn

O pré-lançamento do livro contou com cerca de uma centena de participantes e diversos órgãos de comunicação social. Para além de falar do seu árduo trabalho de pesquisa, o escritor apresentou um vídeo de um aviador americano, William “Bill” Littlejohn, que permaneceu em Portugal durante esta época, e que com os seus depoimentos ajudou na construção do livro, o que possibilitou aos presentes terem uma noção mais clara do que de facto foi Portugal e os seus aeroportos em tempos de guerra. «Quando sobrevoava Portugal notei que tinha começado um fogo na asa. Fiquei rapidamente sem o sistema eléctrico e tive de tomar uma decisão: ou me ejectava ou tentava aterrar. Decidi aterrar o avião. Mas sem a viatura de aterragem e ‘flaps’ foi muito complicado. Consegui aterrá-lo a uma velocidade de 193 quilómetros por hora e deveria estar a 140. Quando finalmente consegui imobilizá-lo [a apenas 15 metros do final da pista], saí do avião e beijei o chão. Ao meu lado estavam dezenas de portugueses a bater palmas», relatou o piloto. Depois da viagem para Elvas, “Bill” contou a sua vida ao lado da população portuguesa, onde trocava ensinamentos com estudantes e «chocava» com a cultura portuguesa. «Bebíamos vinho em todas as refeições. Não estávamos habituados a isso, mas em Portugal toda a gente bebia», sublinhou.

Resultado de mais de uma década de investigação e pesquisa sobre o tema, «as coisas começaram devagar e a certa altura entendi que seria possível fazer um livro com isto. Um pescador contou-me histórias de como tinha salvo seis americanos em Novembro de 1943. Comecei a procurar estes sobreviventes. Quando finalmente encontrei um, já tinha começado à procura de outros e já tivera sorte. As histórias foram surgindo, tal como os documentos e outras coisas. Partir daí para o livro é fácil», explica o autor ao Experimental. De facto é o que o livro nos dá: um conjunto de histórias bem contadas e interligadas em cerca de 300 páginas, ilustradas com inúmeras fotografias da época e variados documentos.

Um retrato da política e da diplomacia

«Perceber a forma como iria ficar organizado, como entrava uma determinada história num dado momento e não noutro, como interligar histórias que, mesmo sendo parecidas, não tinham ligação entre si foram os aspectos mais difíceis», reconhece Carlos Guerreiro. No entanto, o livro não é apenas uma mera apresentação de histórias contadas por aviadores que as viveram, ainda que seja essa a sua base primordial. Aterrem em Portugal apresenta a visão política e social que Portugal mantinha com os países em guerra. «Paralelamente, o autor descreve-nos os procedimentos inerentes à repartição das tripulações nas suas vertentes diplomáticas e política, o que permite ao leitor ter uma ideia do modo como Portugal se comportava no conflito e sobretudo quanto aos problemas que estes episódios traziam a um país que sendo neutro tinha consequentemente de gerir cuidadosamente a sua política de relacionamento com os países envolvidos directamente no conflito», explica Marçal Grilo no prefácio de sua autoria.

O ex-ministro da Educação, que a editora do livro conhecia pessoalmente, era, de resto, um igual apaixonado por aviões. «Não coloquei quaisquer obstáculos e em Setembro recebemos, de facto, o tal prefácio que era muito mais extenso do que eu pensava», afirma o jornalista. De facto, o texto não é mais do que um grande elogio ao trabalho final de Carlos Guerreiro. Como escreve Marçal Grilo, «o livro, cujo interesse e importância são indiscutíveis (…) é de evidente interesse histórico e que constitui um marco para o conhecimento das diferentes situações vividas em Portugal».

«Este livro não é um fim, é um começo»

«Não é um trabalho fechado nem ou completo», afirma o autor, apelando para que seja ponto de partida para muitos outros trabalhos. E de facto o é, porque muitas outras histórias estão a ser desvendadas pela iniciativa deste livro e que o escritor promete «preencher mais tarde».
Aterrem em Portugal já está à venda nas livrarias portuguesas.

 
Joana Ferreira | Ana Carvalho